terça-feira, 12 de abril de 2011

A Guerra dos Clones


Um dos maiores desafios do músico é ser original. Generalizando um pouco, tudo o que tinha para ser criado em termos de música já foi criado. Ser original, musicalmente falando, é usar o que já existe e transformar em algo novo e atraente. Infelizmente, não é o que tem acontecido nos últimos anos na indústria musical, especialmente no segmento denominado gospel. Procurando com atenção, é possível ouvir lampejos de criatividade e inovação em poucas e boas bandas, mas no geral ouvimos uma série de clones daqueles que conseguiram, através de muito esforço, fazer algo diferente.

Peguemos como exemplo o (talvez) maior expoente da música cristã mundial atualmente, Hillsong. O ministério desenvolveu seu próprio estilo de fazer canções e faz praticamente a mesma coisa, como uma ou outra variação, disco após disco. (Abrindo um parêntese rápido, vale destacar que a principal influência do Hillsong no aspecto musical é claramente o U2... durma com essa quebra de paradigmas). Vendo o sucesso que os australianos obtiveram, centenas e mais centenas de artistas do mundo todo resolveram investir na mesma fórmula para conquistar o seu lugar no disputado mercado gospel. E hoje é praticamente impossível ouvir um disco inteiro de uma banda cristã sem que apareçam guitarras com camadas e mais camadas de delay (obrigado U2), pianos elétricos imitando o Fender Rhodes, entre outros.


A falta de criatividade, porém, não se limita à prática de copiar arranjos. As bandas atualmente estão indo mais longe. Compram os mesmos instrumentos e amplificadores (na esperança de obter os mesmos timbres, o que é um pouco de ilusão), escrevem mais ou menos as mesmas letras, utilizam as mesmas harmonias, vestem até as mesmas roupas! Talvez seja medo de ousar e não obter reconhecimento, talvez seja simplesmente oportunismo. O fato é que o mercado – e os consumidores – já está cheio dos clones. Ninguém aguenta mais ouvir sempre a mesma coisa. Ninguém consome sempre a mesma coisa.

O que falta nos artistas de hoje (não em todos, mas em muitos) é ousadia. Coragem para fazer algo diferente, que tenha a sua cara, que conte aquilo que eles querem dizer. Ousadia para fazer uma música com três notas, mas que tenha uma mensagem verdadeira, que não seja apenas uma cópia daquilo que alguém já disse antes. Ousadia para encher uma música de efeitos, para usar instrumentos diferentes como a cítara e a harpa, ousadia para cantar sobre injustiças sociais, sobre missões, sobre derrotas (sim, há algumas derrotas na vida dos cristãos). Originalidade e ousadia devem andar juntos se os artistas quiserem, de fato, impactar o mundo com sua arte.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Teologia da Tragédia

Na hora da tragédia, a atitude de muitos é voltar os olhos para o céu. Uns, para agradecer pelo livramento; outros, para questionar as razões da desgraça; há ainda aqueles que olham para cima buscando um culpado. O fato é que poucas situações na vida nos levam a pensar tanto em Deus quanto a tristeza.

O terremoto/tsunami que atingiu o Japão na última madrugada causou estragos relativamente pequenos em termos de vidas: por enquanto, pouco mais de 200 pessoas morreram – se compararmos com os deslizamentos que aconteceram no estado do Rio de Janeiro, em que morreram seis mil pessoas, ou o terremoto (mais fraco que o do Japão) que devastou o Haiti em 2010, matando 200 mil. Mas, como toda tragédia, o fenômeno que literalmente balançou o Japão tem suscitado debates calorosos entre os milhares de teólogos de plantão. Na hora da tragédia, todo mundo vira teólogo, assim como todos são técnicos de futebol na Copa do Mundo. Todos têm algum comentário “oportuno”, “perspicaz” e “inteligente” para fazer quando o assunto surge.


Os cristãos se dividem em alguns grupos: há os que acham que Deus não pode ser culpado pelo que acontece no mundo; há os que acham que Deus permite que tragédias aconteçam para cumprir propósitos maiores; e existem aqueles que acham que Deus manda catástrofes para punir as pessoas por seus pecados. Estes últimos são minoria, ainda bem. Os ateus, claro, com seus discursos cada vez mais originais e manjados, acham um absurdo as pessoas acreditarem em um deus que permite que as pessoas morram em tragédias, assim como acham um absurdo este mesmo deus permitir que uma criança morra de fome na África, que uma velhinha indefesa seja estuprada, que alguém desenvolva uma doença devastadora (os argumentos são sempre os mesmos). Mas, por bem da continuidade do texto, vamos nos ater ao pensamento dos cristãos.

Infelizmente ou felizmente, não existem respostas absolutas em questões como estas. Por que Deus permite que milhares de pessoas morram em um terremoto? Não sei. Mas tenho uma opinião que pode escandalizar os mais puritanos: Deus não tem propósitos para tudo. Explicando: um dos nomes de Jesus é Emanuel, que significa literalmente “Deus Conosco”. Isso significa que ele não reina de um lugar distante, e sim vive entre nós, ou seja, sente nossas dores, vê nossos dilemas, convive com as nossas falhas de maneira pessoal. O paradoxo disso é que Deus é onipotente, onisciente e onipresente, o que significa que nada lhe escapa. Ele sabe de tudo, conhece tudo e pode fazer tudo. Ele é soberano em todas as situações, inclusive sobre a tragédia.

Como muitas questões na vida cristã, a tragédia é baseada em paradoxos. Deus se importa, mas permite. Deus não está nem aí, por isso permite. Deus ama, mas seus propósitos são soberanos. Deus é justo, por isso castiga. Diversos pensamentos surgem, e subitamente nos vemos colocando Deus no banco dos réus, como se ele precisasse de defesa pela maneira como as coisas acontecem. A fé é recheada de mistérios, e (in)felizmente não vamos conseguir entender todas as coisas. Talvez Deus use as tragédias para mostrar ao homem a brevidade da vida e a loucura que é viver sem Cristo. Talvez Deus esteja realmente cumprindo suas profecias, talvez Jesus esteja preparando sua segunda vinda. Talvez Deus tenha abdicado de reinar sobre a Terra pela rebeldia do homem. São muitas teologias, muitos pensamentos. E você, o que acha?

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Carta ao Papai Noel

Querido Papai Noel,

A última carta que escrevi para o senhor foi há vinte anos, mais ou menos. Naquela época o mundo era outro, seu Noel. Eu não tinha preocupações, contas a pagar, não trabalhava, não precisava saber o que acontecia no mundo. Só queria brincar, por isso escrevia para o senhor – para ter bons brinquedos, de preferência mais caros e mais bonitos do que os que o senhor dava para os meus primos.

Mais de vinte anos se passaram, a vida mudou, o mundo mudou. E aqui estou eu, Papai Noel, escrevendo novamente para o senhor. Voltei a acreditar no senhor, sabe? Por muito tempo eu preferi não acreditar em você. Diziam que você era um mito, uma ideia criada por alguém que queria lucrar com isso. Diziam que você até tinha existido, mas não podia fazer nada de especial. Mas agora, depois de adulto e casado, eu vejo que você existe sim.

Bom, o Natal está chegando, então essa carta é para pedir os meus presentes. Digo meus presentes, no plural mesmo, porque esse negócio de ganhar um presente só é coisa de criança. A primeira coisa que eu quero é um pouco mais de justiça nessa vida. Não estou nem pedindo que seja uma justiça perfeita, mas um pouquinho melhor só já me deixa mais satisfeito. É tão ruim ver alguém corrupto e desonesto se dar bem nessa vida enquanto as pessoas de bem, que trabalham e batalham para viver uma vida digna, saem sempre no prejuízo!


 Quero também um pouco mais de paz. Todos os dias vejo na televisão, na Internet e até pessoalmente alguma forma de violência. Assaltos, assassinatos, sequestros, estupros e outras formas vis de comportamento que, tenho certo, entristecem o senhor. Dá-me um pouco mais de paz nesta vida, para que não precise ver famílias chorando por motivos banais, para que não precise ver povos lutando entre si, para que não precise viver olhando para todos os lados ao sair de casa.

Outra coisa que seria interessante de ganhar neste Natal seria uma porção generosa de paciência – não só para mim, mas para todos. O que tem de gente explodindo por nada por aí não é brincadeira. Você esbarra em alguém na rua, a pessoa te xinga, faz gestos e, vez ou outra, pode querer te bater. Você pergunta a mesma coisa duas vezes, a pessoa chega a respirar fundo antes de responder, tamanha a falta de paciência com a burrice alheia. Então, Papai Noel, este seria um excelente presente.

Se estas coisas que eu pedi forem difíceis demais para este Natal, eu aceito um jogo de videogame. Se os problemas do mundo não forem resolvidos, pelo menos eu quero me divertir.

Abraços,

Edu

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O Deus da Riqueza

De tempos em tempos, as igrejas evangélicas entram numas “modas” que invariavelmente acabam roubando, ainda que indiretamente (e até sem querer), a verdadeira essência do evangelho. Houve a época em que todo mundo era apaixonado por Deus – usando esse termo mesmo, “paixão” -, onde nove entre dez músicas de artistas cristãos falavam sobre estar apaixonado por Deus. Houve a época da batalha espiritual, onde tudo era culpa de demônios, tudo era influência maligna e era preciso passar por um processo bem complexo de “libertação e cura”. De uns tempos para cá, vivemos o evangelho da riqueza.

Primeiro, gostaria de dizer que não me oponho à riqueza. Pelo contrário. Seria hipocrisia dizer que não quero ser rico. Todo mundo quer. O que me incomoda é que o que tem sido pregado em muitas igrejas (e não só em igrejas, mas também na televisão, por grandes “líderes” de denominações) é que ser cristão é um passo certo para a riqueza. O que tem sido pregado hoje em dia é a teologia do “plantar para colher”, do “Deus quer te abençoar”, da “oferta de fé”, sempre com foco para a mudança rápida de padrão de vida daquele que resolve doar.


Sou cristão há pouco tempo, mas nunca concordei com esta visão de que Deus deseja tornar seu povo rico. Isto não é bíblico. Bom, pelo menos não me lembro de ter lido nada do tipo na bíblia. Há na bíblia referências à prosperidade? Sem dúvidas! Abraão tinha muitas terras, Jó foi o cara mais rico de sua época, José foi governador do Egito... Mas não há, em nenhum trecho das escrituras, algo como “... e Deus olhou para o seu povo e resolveu dar-lhe terras, gado, ouro, prata e pedras preciosas”.

As igrejas de hoje em dia estão cheias de mendigos espirituais

A pessoa que busca riqueza em Deus está querendo muito pouco. Se alguém acha que isso é tudo que Deus pode oferecer, me desculpe, mas não é. Sem querer ofender a fé de ninguém – mas defendendo a minha -, penso que ter uma vida espiritual que foque apenas nas coisas deste mundo é uma tremenda perda de tempo. Se a bíblia me diz para não me preocupar em juntar riquezas na terra, mas no céu, e eu só me preocupo com o que posso ter aqui, estou fazendo algo errado, não? Mas se dar uma oferta de mil reais, dois mil, acreditando que Deus vai devolver sete, dez, vinte vezes mais é o máximo de sua fé nas bênçãos de Deus, está na hora de entender quem realmente Deus é e o que ele realmente pode fazer.

Para quem não acredita em Deus, é fácil e cômodo apontar o dedo para os evangélicos por causa desta questão financeira. Muita besteira é dita e feita em nome de Deus, mas que na verdade só visa o enriquecimento de algumas (poucas pessoas). Mas o que essas pessoas provavelmente não sabem (e não creem, provavelmente) é que Deus liberta, Deus cura, Deus ama. É nesse amor que creio e por ele dedico minha vida a Deus. E é por causa desse amor que me recuso a servir a Deus esperando um carrão ou uma mansão como pagamento. Nesse deus (com ‘d’ minúsculo mesmo) cujo único mérito é distribuir dinheiro eu não creio, nunca vou crer e sinceramente tenho pena de quem crê.