Na hora da tragédia, a atitude de muitos é voltar os olhos para o céu. Uns, para agradecer pelo livramento; outros, para questionar as razões da desgraça; há ainda aqueles que olham para cima buscando um culpado. O fato é que poucas situações na vida nos levam a pensar tanto em Deus quanto a tristeza.
O terremoto/tsunami que atingiu o Japão na última madrugada causou estragos relativamente pequenos em termos de vidas: por enquanto, pouco mais de 200 pessoas morreram – se compararmos com os deslizamentos que aconteceram no estado do Rio de Janeiro, em que morreram seis mil pessoas, ou o terremoto (mais fraco que o do Japão) que devastou o Haiti em 2010, matando 200 mil. Mas, como toda tragédia, o fenômeno que literalmente balançou o Japão tem suscitado debates calorosos entre os milhares de teólogos de plantão. Na hora da tragédia, todo mundo vira teólogo, assim como todos são técnicos de futebol na Copa do Mundo. Todos têm algum comentário “oportuno”, “perspicaz” e “inteligente” para fazer quando o assunto surge.
Os cristãos se dividem em alguns grupos: há os que acham que Deus não pode ser culpado pelo que acontece no mundo; há os que acham que Deus permite que tragédias aconteçam para cumprir propósitos maiores; e existem aqueles que acham que Deus manda catástrofes para punir as pessoas por seus pecados. Estes últimos são minoria, ainda bem. Os ateus, claro, com seus discursos cada vez mais originais e manjados, acham um absurdo as pessoas acreditarem em um deus que permite que as pessoas morram em tragédias, assim como acham um absurdo este mesmo deus permitir que uma criança morra de fome na África, que uma velhinha indefesa seja estuprada, que alguém desenvolva uma doença devastadora (os argumentos são sempre os mesmos). Mas, por bem da continuidade do texto, vamos nos ater ao pensamento dos cristãos.
Infelizmente ou felizmente, não existem respostas absolutas em questões como estas. Por que Deus permite que milhares de pessoas morram em um terremoto? Não sei. Mas tenho uma opinião que pode escandalizar os mais puritanos: Deus não tem propósitos para tudo. Explicando: um dos nomes de Jesus é Emanuel, que significa literalmente “Deus Conosco”. Isso significa que ele não reina de um lugar distante, e sim vive entre nós, ou seja, sente nossas dores, vê nossos dilemas, convive com as nossas falhas de maneira pessoal. O paradoxo disso é que Deus é onipotente, onisciente e onipresente, o que significa que nada lhe escapa. Ele sabe de tudo, conhece tudo e pode fazer tudo. Ele é soberano em todas as situações, inclusive sobre a tragédia.
Como muitas questões na vida cristã, a tragédia é baseada em paradoxos. Deus se importa, mas permite. Deus não está nem aí, por isso permite. Deus ama, mas seus propósitos são soberanos. Deus é justo, por isso castiga. Diversos pensamentos surgem, e subitamente nos vemos colocando Deus no banco dos réus, como se ele precisasse de defesa pela maneira como as coisas acontecem. A fé é recheada de mistérios, e (in)felizmente não vamos conseguir entender todas as coisas. Talvez Deus use as tragédias para mostrar ao homem a brevidade da vida e a loucura que é viver sem Cristo. Talvez Deus esteja realmente cumprindo suas profecias, talvez Jesus esteja preparando sua segunda vinda. Talvez Deus tenha abdicado de reinar sobre a Terra pela rebeldia do homem. São muitas teologias, muitos pensamentos. E você, o que acha?

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