Querido Papai Noel,
A última carta que escrevi para o senhor foi há vinte anos, mais ou menos. Naquela época o mundo era outro, seu Noel. Eu não tinha preocupações, contas a pagar, não trabalhava, não precisava saber o que acontecia no mundo. Só queria brincar, por isso escrevia para o senhor – para ter bons brinquedos, de preferência mais caros e mais bonitos do que os que o senhor dava para os meus primos.
Mais de vinte anos se passaram, a vida mudou, o mundo mudou. E aqui estou eu, Papai Noel, escrevendo novamente para o senhor. Voltei a acreditar no senhor, sabe? Por muito tempo eu preferi não acreditar em você. Diziam que você era um mito, uma ideia criada por alguém que queria lucrar com isso. Diziam que você até tinha existido, mas não podia fazer nada de especial. Mas agora, depois de adulto e casado, eu vejo que você existe sim.
Bom, o Natal está chegando, então essa carta é para pedir os meus presentes. Digo meus presentes, no plural mesmo, porque esse negócio de ganhar um presente só é coisa de criança. A primeira coisa que eu quero é um pouco mais de justiça nessa vida. Não estou nem pedindo que seja uma justiça perfeita, mas um pouquinho melhor só já me deixa mais satisfeito. É tão ruim ver alguém corrupto e desonesto se dar bem nessa vida enquanto as pessoas de bem, que trabalham e batalham para viver uma vida digna, saem sempre no prejuízo!
Quero também um pouco mais de paz. Todos os dias vejo na televisão, na Internet e até pessoalmente alguma forma de violência. Assaltos, assassinatos, sequestros, estupros e outras formas vis de comportamento que, tenho certo, entristecem o senhor. Dá-me um pouco mais de paz nesta vida, para que não precise ver famílias chorando por motivos banais, para que não precise ver povos lutando entre si, para que não precise viver olhando para todos os lados ao sair de casa.
Outra coisa que seria interessante de ganhar neste Natal seria uma porção generosa de paciência – não só para mim, mas para todos. O que tem de gente explodindo por nada por aí não é brincadeira. Você esbarra em alguém na rua, a pessoa te xinga, faz gestos e, vez ou outra, pode querer te bater. Você pergunta a mesma coisa duas vezes, a pessoa chega a respirar fundo antes de responder, tamanha a falta de paciência com a burrice alheia. Então, Papai Noel, este seria um excelente presente.
Se estas coisas que eu pedi forem difíceis demais para este Natal, eu aceito um jogo de videogame. Se os problemas do mundo não forem resolvidos, pelo menos eu quero me divertir.
Abraços,
Edu

