quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Carta ao Papai Noel

Querido Papai Noel,

A última carta que escrevi para o senhor foi há vinte anos, mais ou menos. Naquela época o mundo era outro, seu Noel. Eu não tinha preocupações, contas a pagar, não trabalhava, não precisava saber o que acontecia no mundo. Só queria brincar, por isso escrevia para o senhor – para ter bons brinquedos, de preferência mais caros e mais bonitos do que os que o senhor dava para os meus primos.

Mais de vinte anos se passaram, a vida mudou, o mundo mudou. E aqui estou eu, Papai Noel, escrevendo novamente para o senhor. Voltei a acreditar no senhor, sabe? Por muito tempo eu preferi não acreditar em você. Diziam que você era um mito, uma ideia criada por alguém que queria lucrar com isso. Diziam que você até tinha existido, mas não podia fazer nada de especial. Mas agora, depois de adulto e casado, eu vejo que você existe sim.

Bom, o Natal está chegando, então essa carta é para pedir os meus presentes. Digo meus presentes, no plural mesmo, porque esse negócio de ganhar um presente só é coisa de criança. A primeira coisa que eu quero é um pouco mais de justiça nessa vida. Não estou nem pedindo que seja uma justiça perfeita, mas um pouquinho melhor só já me deixa mais satisfeito. É tão ruim ver alguém corrupto e desonesto se dar bem nessa vida enquanto as pessoas de bem, que trabalham e batalham para viver uma vida digna, saem sempre no prejuízo!


 Quero também um pouco mais de paz. Todos os dias vejo na televisão, na Internet e até pessoalmente alguma forma de violência. Assaltos, assassinatos, sequestros, estupros e outras formas vis de comportamento que, tenho certo, entristecem o senhor. Dá-me um pouco mais de paz nesta vida, para que não precise ver famílias chorando por motivos banais, para que não precise ver povos lutando entre si, para que não precise viver olhando para todos os lados ao sair de casa.

Outra coisa que seria interessante de ganhar neste Natal seria uma porção generosa de paciência – não só para mim, mas para todos. O que tem de gente explodindo por nada por aí não é brincadeira. Você esbarra em alguém na rua, a pessoa te xinga, faz gestos e, vez ou outra, pode querer te bater. Você pergunta a mesma coisa duas vezes, a pessoa chega a respirar fundo antes de responder, tamanha a falta de paciência com a burrice alheia. Então, Papai Noel, este seria um excelente presente.

Se estas coisas que eu pedi forem difíceis demais para este Natal, eu aceito um jogo de videogame. Se os problemas do mundo não forem resolvidos, pelo menos eu quero me divertir.

Abraços,

Edu

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O Deus da Riqueza

De tempos em tempos, as igrejas evangélicas entram numas “modas” que invariavelmente acabam roubando, ainda que indiretamente (e até sem querer), a verdadeira essência do evangelho. Houve a época em que todo mundo era apaixonado por Deus – usando esse termo mesmo, “paixão” -, onde nove entre dez músicas de artistas cristãos falavam sobre estar apaixonado por Deus. Houve a época da batalha espiritual, onde tudo era culpa de demônios, tudo era influência maligna e era preciso passar por um processo bem complexo de “libertação e cura”. De uns tempos para cá, vivemos o evangelho da riqueza.

Primeiro, gostaria de dizer que não me oponho à riqueza. Pelo contrário. Seria hipocrisia dizer que não quero ser rico. Todo mundo quer. O que me incomoda é que o que tem sido pregado em muitas igrejas (e não só em igrejas, mas também na televisão, por grandes “líderes” de denominações) é que ser cristão é um passo certo para a riqueza. O que tem sido pregado hoje em dia é a teologia do “plantar para colher”, do “Deus quer te abençoar”, da “oferta de fé”, sempre com foco para a mudança rápida de padrão de vida daquele que resolve doar.


Sou cristão há pouco tempo, mas nunca concordei com esta visão de que Deus deseja tornar seu povo rico. Isto não é bíblico. Bom, pelo menos não me lembro de ter lido nada do tipo na bíblia. Há na bíblia referências à prosperidade? Sem dúvidas! Abraão tinha muitas terras, Jó foi o cara mais rico de sua época, José foi governador do Egito... Mas não há, em nenhum trecho das escrituras, algo como “... e Deus olhou para o seu povo e resolveu dar-lhe terras, gado, ouro, prata e pedras preciosas”.

As igrejas de hoje em dia estão cheias de mendigos espirituais

A pessoa que busca riqueza em Deus está querendo muito pouco. Se alguém acha que isso é tudo que Deus pode oferecer, me desculpe, mas não é. Sem querer ofender a fé de ninguém – mas defendendo a minha -, penso que ter uma vida espiritual que foque apenas nas coisas deste mundo é uma tremenda perda de tempo. Se a bíblia me diz para não me preocupar em juntar riquezas na terra, mas no céu, e eu só me preocupo com o que posso ter aqui, estou fazendo algo errado, não? Mas se dar uma oferta de mil reais, dois mil, acreditando que Deus vai devolver sete, dez, vinte vezes mais é o máximo de sua fé nas bênçãos de Deus, está na hora de entender quem realmente Deus é e o que ele realmente pode fazer.

Para quem não acredita em Deus, é fácil e cômodo apontar o dedo para os evangélicos por causa desta questão financeira. Muita besteira é dita e feita em nome de Deus, mas que na verdade só visa o enriquecimento de algumas (poucas pessoas). Mas o que essas pessoas provavelmente não sabem (e não creem, provavelmente) é que Deus liberta, Deus cura, Deus ama. É nesse amor que creio e por ele dedico minha vida a Deus. E é por causa desse amor que me recuso a servir a Deus esperando um carrão ou uma mansão como pagamento. Nesse deus (com ‘d’ minúsculo mesmo) cujo único mérito é distribuir dinheiro eu não creio, nunca vou crer e sinceramente tenho pena de quem crê.